quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
"Mude": poema de Edson Marques, frequentemente atribuído a Clarice Lispector, na interpretação de Antonio Abujamra
"Mude" é um belo e profundo poema de Edson Marques, equivocadamente atribuído, com certa frequência a escritora Clarice Lispector, autora de A Hora da Estrela, A paixão segundo GH, Perto do Coração Selvagem entre outros clássicos da literatura modernista brasileira, magistralmente interpretado pelo saudoso ator Antonio Abujamra.
Quem, como eu, professor de língua portuguesa e literatura, que faz análise do discursos e conhece a obra da escritora que criou Macabea e outras personagens emblemáticas, reconhece o estilo da autora, mas não o vislumbra nesse texto, que é belo, profundo, motivador, mas pertencente a outro autor.
Em tempos de inteligência artificial, e bem antes disso, cabe saber ler e perceber o estilo peculiar de cada autor, seus temas prediletos e recorrentes, sua forma de enunciar, ou seja, sua enunciação peculiar.
Não que, com o tempo, escritores e poetas não mudem o jeito de ver o mundo e escrever sobre ele. Entretanto, o que o poema de Edson Marques nos traz é um convite à vida, ao bem viver, à transformação pessoal e social.
Em tempos de hiperconexão, de notificações infinitas, de áudios no whatsapp acelerados, "Mude" destaca a importância de se permitir mudanças de rota em busca de um outro caminho, rumo a um objetivo maior. Uma confissão quase estoica [corrente filosófica] de valorização da simplicidade da vida, de encontrar beleza e conforto nas pequenas coisas do viver mais do que a velocidade ao se atingi-las.
De certa forma, mudar para se reconhecer, não se acomodar, nem também se desesperar. Seguir em frente, ainda que lentamente, em busca de outros caminhos. Se autoconhecer, ter autocuidado, cuidar da saúde física e mental. Estabelecer pequenos rituais e ajustes no roteiro, no mapa do viver. Quase uma autoajuda, mas uma bela poesia. Afinal, a literatura de qualidade é da fato uma espécie de autoajuda: escritores, poetas, filósofos são professores na arte da reflexão poética e filosófica.
Um dos livros mais comoventes que li, muito tempo atrás, foi "Cartas a Théo", reunindo a correspondência entre os irmãos Vah Gogh [Vincent e Théo], e nele uma passagem bela, profunda, poética e filosófica que nunca esqueci. Que diz muito com tão poucas palavras, e que representa essa mudança:
"O moinho já não existe; o vento continua, todavia."
Parafraseando a frase acima: A escola originária do século XIX, não existe mais; porém, a vontade de aprender e ensinar permanecem, mesmo em tempos digitais. Ainda que os moinhos não sejam mais os gigantes imaginados por dom Quixote, quixotesco ainda o é incluir alunos numa escola, enfileirados, com tempo e horas marcados, para durante 200 dias e mais de 800 horas anuais fazer que esses encontros sejam significativos para o maestro e sua sinfonia, valorizando o talento de cada concertista que vem pra escola aprendendo a ensinar e ensinando a aprender. Num mundo hiperconectado por equipamentos, maior desafio do educador e mestre do século XXI é saber se conectar ao seu alunado com ansiedade, TDAH, depressão, timidez, etc. A escola precisa também mudar para poder continuar sendo o espaço de socialização, de descobertas, de troca de saberes, de cidadania, alegria, diversão. Sejamos, enquanto educadores [não importa se pais e/ou professores] moinhos para esse vento que nos circunda.
Observação:
Esta postagem é de autoria de José Antonio Klaes Roig, professor, escritor e poeta, além de editor do blog Educa Tube Brasil. http://educa-tube.blogspot.com José Antonio Klaes Roig ou Zé Roig, como gosta de ser chamado, possui o Prêmio de Professor Transformador [2020] e seu blog Educa Tube Brasil, o Prêmio de um dos melhores blogues educacionais do Brasil [2020], conforme selos estampados na coluna à direta desta postagem.
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