O belo filme acima
Além da Sala de Aula (2011), que incluo na série (marcadores) CinEducação (cinema e educação) deste blog, é inspirado na história de vida e no trabalho da professora iniciante Stacey Bess, que é contratada para dar aulas aos filhos dos sem-teto de um abrigo em Salt Lake City (EUA), em meados dos anos 1980, e que mostra como - através do que o Educa Tube chama de Pedagogias do Exemplo e do Afeto - a referida educadora consegue superar os medos iniciais de todo profissional, encaminhado para uma função sem a menor estrutura e com intuição, inspiração, cordialidade, vai superando preconceitos dela mesma em relação ao demais e dos outros em relação a ela própria. Tudo é improvisado no local, sequer existe uma escola, apenas um galpão que é utilizado como sala de aula precária.
Algumas anotações e reflexões do Educa Tube, durante e após assistir o filme (para os educadores lerem ao final do filme também, comparando suas impressões sobre o mesmo):
Stacey Bess é encaminhada pelo Dr. Ross até Mrs. Trumble, professora substituta em projeto experimental com alunos sem-teto. A história de uma professora do tempo da máquina datilográfica, do telefone discado e da fita de áudio K-7. Mal chega à "escola" e é recebida com advertência da profa. Trumble:
"Quando as coisas saírem de controle, passe um filme, escreva seus nomes no quadro." A substituta que foge dali com certo pavor, não tem livros, acha que a merenda compensa, diz que as crianças se comportam como animais (alguém já ouviu isto antes, ou já passou por algo parecido?). E finaliza Mrs. Trumble, para espanto e medo de Bess, que aquilo é:
"Uma creche de crianças a caminho do reformatório".
A novata professora vê no quadro a temida
"Lista: Nomes Vergonha" e a apaga. Os alunos quando veem a nova professora chegar dizem:
"A bruxa se foi e a palhaça entrou..."
Bess se identifica com Maria, aluna nova no local, assim como a nova professora, que mostrando sua família, casa e férias para crianças sem teto percebe as imensas diferenças sociais. Pede que compartilhem o que fizeram nas férias: uma foi visitar pai na prisão. Um trem passa, e parece um pequeno terremoto; um rato aparece, a professora o enfrenta, colocando-o para rua... Alunos se surpreendem que ela não gritou nem fez nada, a não ser resolver o problema com calma, depositando um bloco de concreto sobre o buraco de onde o rato saiu, quando o trem passou... As crianças terríveis para a outra professora, ficam fascinadas com a nova educadora. É deixada uma pulseira sobre a mesa com a frase:
"Minha amiga". Bess passa a usá-la e ao final do filme se saberá quem foi que a presenteou. Vejam...
Não, definitivamente não era o que ela esperava de seu primeiro contato com o novo trabalho, e volta apenas para que seus filhos não saibam que ela desistiu... Quantas vezes não desistimos por causa de nossos alunos, família, vocação... Quantas vezes já pensamos em desistir, diante do cada vez maior desafiador ato de educar, e acabamos desistindo de desistir, por que amamos nossa profissão?
Dr. Ross, diretor de pessoal, não atende fone, não dá estrutura, não conhece escola, um burocrata do saber... Apesar disso, impossível que um bom educador não se identifique com a sua turma e não estabeleça uma relação de afetividade, a partir do diálogo e por conta dele...
Bess leciona para seis níveis de ensino juntos e uma constatação que tem:
"Seis anos na escola e não me prepararam para isso...", criticando a própria formação que recebeu, que não a preparou para o mundo real. Ao seu redor, mesmos personagens comuns a toda escola, seja pública ou privada: a mãe fumante que delega à professora a educação de sua filha, o pai alcoólatra; alguns dependentes químicos, mas também pessoas que se importam umas com as outras e querem auxiliar, dentro de suas limitações.
Stacey Bess, sem receber material da instituição, loca vídeos em VHS (alguém se lembra do antigo videocassete?), mas a TV da sala é roubada por casal que troca o que encontra por drogas. Então, a professora escolhe como líder o aluno mais rebelde, Danny, e começa a pintar sozinha a sala, com tintas e outros utensílios, que a mesma adquiriu às suas custas. Um sem-teto a ajuda pintar sala de aula, uma aluna ajuda a limpar quadro negro. Ela gasta mais do que ganha com a sala de aula para mudar o espaço, antes abandonado. Dá voz aos alunos, através da emblemática figura do policial: para um a figura do policial é traumática por ter sido preconceituoso e desrespeitoso com a mãe sem teto; para outras duas meninas trancadas e abandonadas pela mãe, enquanto esta ia namorar, a figura do policial foi a do salvador. Ótima cena para discutir o maniqueísmo social, pois todos temos prós e contras, um lado positivo e negativo em nossas ações e omissões...
Bess é solidária e cooperativa, tanto que convida um idoso sem-teto, que é talentoso desenhista e pintor, para ensinar alunos a desenhar e pintar. Mais: delega a aluna Maria tocar o sino, chamando a turma para a aula.
O novo diretor de pessoal Dr. Warren, que vem substituir o burocrata Dr. Ross (aos 52 min. do filme), desconhece a quantidade de crianças no abrigo, pois os dados de alimentação vão para este setor, e ele não tem conhecimento da realidade. Assim como seu antecessor, jamais foi ao local. Mas ao conhecer a realidade local, passa a enviar material escolar (mobiliário e livros), até um piano de sua filha, que não tem mais utilidade em casa, doa para o abrigo. Uma mãe que conhece música toca com certo talento.
O exemplo e a afetividade de Stacey Bess são "componentes curriculares" de sua prática escolar e cativam tanto alunos como seus pais. Chega a adotar temporariamente a aluna Maria, quando o pai da mesma é expulso abrigo por beber. Por fim, as coisas começam a se encaminhar quando Bess promove a primeira reunião com pais, e ajuda a mãe de suas alunas a ler. O marido de Stacey, em curso de verão, passa a ser treinador de esportes. Uma educadora que sem recursos, conseguiu envolver uma comunidade carente, sem ter as condições ideias de trabalho, mas fazendo a diferença dentro de suas possibilidades. Um exemplo de como é possível desenvolver uma metodologia eficiente, sem ser refém da tecnologia (que pode ser uma ótima aliada, mas jamais o carro-chefe de um educador).
Duas pedagogias que o Educa Tube destaca: a do Exemplo e a do Afeto, presentes neste belo filme. Exemplo sem afeto, é repressão; afeto, sem exemplo é omissão... A junção dos dois, ou melhor, a intersecção de ambos numa pessoa, é que pode fazer toda a diferença...
As Pedagogias do Exemplo e do Afeto podem ser o caminho mais longo, mas o mais certo de se chegar a algum lugar. E tem muito exemplo de colegas e amigos educadores, e de filmes sobre prática de outros professores, que relatam que exemplo e afeto precisam ser siameses na prática do educador, seja ele pai ou professor.
O filme Além da sala de aula, mostram bem isso... Sobre gestão escolar... A profa. Bess tinha um gestor que só se preocupava com a gestão de pessoal, ou seja, prover recursos humanos (mesmo que eles não tivessem a menor estrutura de trabalho, pois estrutura era com outro)... Quando do segundo gestor, em uma cena, ela diz que tinha 20 alunos sem-teto, ele se surpreende. E ela comenta: mas o Sr. não lê meus relatórios de merenda? E ele diz: isso vai direto para o encarregado do setor de alimentação. Pois é, ele e seu antecessor jamais foram conhecer o local. Mas ai, quando in loco, e a coisa muda completamente... Burocracia não tem afeto e é sempre um mau exemplo...
E eu fico me perguntando: O que fazer com os tablets, daqui 6 meses, no máximo, 1 ano, quando inventarem outra maravilha tecnológica? Se a metodologia não mudar, é fazer mais do mesmo sempre, com um "brinquedinho" novo... Moderninho? "Modernoso"!
Para mim, na educação, tem só dois tipos: o educador e o burocrata do saber... O primeiro, esta no olho do furacão; o segundo, vê a educação a distância, bem distante mesmo... Que bom que existem professores desafiadores, como o caso de Stacey Bess e outros mais, que nos fazem acreditar que apesar das limitações, com exemplo e afeto podemos superar os desafios, sem esquecer de cobrar dos gestores, uma vista
in loco para conhecer a realidade local. Redundância? Não, pois o mundo é redodno e dá muitas voltas...
Aproveito para destacar frase que a professora
Marli Fiorentin, via Facebook, me escreveu, quando discutíamos justamente sobre as pedagogias do Exemplo e do Afeto, frase curta e profunda:
"Nada convence como o exemplo e nada resiste ao afeto". Precisa dizer mais?